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Amilca de Castro

Circuito Art

Exposição 100 anos de Amilca de Castro

Nos vários períodos da sua criação, o trabalhar com os diversos materiais, o corte e a dobra na matéria, o fazer rigoroso da forma, o equilíbrio da composição, o despojamento do ritmo e da expressividade que o gestual imprime sobre a superfície, e aí tanto faz seja ela bi ou tridimensional, em grandes ou pequenos formatos, a linguagem pessoal de quem estava a criar uma obra singular e poética.

Artista de múltiplas atividades na arte, tendo sido escultor, gravador, desenhista, pintor, diagramador (destaque para a transformação gráfica efetivada no Jornal do Brasil, entre outros), cenógrafo, professor de composição, escultura, desenho e teoria da forma na Faculdade de Belas Artes da UFMG, Amilcar de Castro é não só um dos mais importantes artistas brasileiros do século XX.

Associando-se às comemorações dos 100 anos de Amilcar de Castro, a Paulo Darzé Galeria realiza em outubro de 2020 a exposição 100 anos de Amilcar de Castro, mostra presencial e virtual que reúne diversos trabalhos, entre pinturas e esculturas.

Para visitá-la presencialmente é necessário agendar horário. Aqui no site é possível visitar a exposição e online e o catálogo da exposição com depoimentos de familiares e artistas, uma biografia e um texto crítico de Ferreira Gullar. Na abertura da publicação temos um depoimento de Paulo Darzé:

Ao criar a Paulo Darzé Galeria tinha como um dos objetivos trabalhar com a arte moderna e a arte contemporânea. Isto acabou sendo desenvolvido através dos anos com uma atuação expondo os principais nomes da arte no Brasil. Entre eles estava neste propósito Amilcar de Castro, que o conheci ainda no final dos anos 90 para fecharmos uma mostra. Infelizmente esta não aconteceu com a presença dele. Depois de sua morte realizamos duas exposições em nossa sede aqui na Bahia e uma na SPArte, e continuamos trabalhando e exibindo e comercializando até hoje sua obra.

Falar de Amilcar de Castro em seu centenário é falar de um dos artistas mais importantes na história da arte e de um trabalho que ao ser concebido nos traz o rigor e a simplicidade através de técnicas, formas e linguagens, em diferentes materiais, seja na obra gráfica ou na escultórica, e nos ensina no seu todo e em toda sua criação a afirmação da liberdade, algo imprescindível não só para a arte, mas para vida. Uma lição do existir. Como diz seu filho Rodrigo, artista também de nossa galeria, “quanto mais o tempo passa maior a grandeza que se desvela de sua obra”.

A EXPERIÊNCIA RADICAL
(Ferreira Gullar, 2000)

Alguns aspectos da escultura moderna talvez ainda não tenham sido devidamente explicitados pela crítica, e um deles é a troca do volume pelo plano, da massa pela superfície. Não tenho o propósito de discutir essa questão, muito menos aqui, quando escrevo apenas uma rápida apreciação da obra de Amilcar de Castro. Não obstante, é precisamente porque retomo a reflexão sobre suas obras que esse problema se coloca. É que a obra de Amilcar, por sua exemplaridade, situa-se no centro mesmo da discussão da escultura moderna.

Explico-me. O movimento de arte neoconcreta de que Amilcar foi um dos protagonistas, radicalizou as questões da arte contemporânea como nenhum outro movimento o fizera até aquela época no Brasil e, por isso mesmo, pôs sobre a mesa as questões essenciais com que ela lidava desde o neoplasticismo, o suprematismo, o construtivismo e, nos anos 50, a Escola de Ulm. Ou seja, que arte fazer depois da ruptura com a natureza? Essa ruptura implicava o abandono da figura e consequentemente de toda a linguagem pictórica e escultórica do passado. No plano da escultura, Amilcar é quem vai mais fundo nessa indagação.

A matéria da escultura tinha sido até começos do século 20 o volume, a massa. Com Pevsner, Gabo, Max Bill, entre outros a massa se evapora deixando em seu lugar o espaço vazio. Amilcar entende que cabia ao escultor, então, reinventar a escultura a partir do plano, que é o contrário do volume. Na verdade, outros escultores lidaram com essa mesma questão, mas o específico da experiência amilcariana está na radicalidade com que assumiu o desafio: do plano (da superfície plana) nascerá a nova escultura sem nenhum artifício, sem apelo a nenhum recurso estranho à natureza do próprio plano. É um começar de novo, a partir do zero.

Acompanhei, no começo dos anos 50, a busca que ele realizava, as suas perplexidades e tentativas diante da superfície inerme e muda que era sua única herança. Até que um dia veio-lhe a resposta: cortou uma placa retangular no meio e moveu uma das partes para baixo e a outra para cima; a placa bidimensional, com esse simples movimento, tornara-se tridimensional – volume!

Começa aí a escultura Amilcar de Castro. Um corte e um gesto. A placa, invencivelmente calada e imóvel, enfim se anima e fala. Uma fala que se refere à sua própria origem e retorna incessantemente a ela, porque, na verdade, todas as obras que Amilcar produziu desde aquele remoto momento (1958?/1959?) são variações daquela primeira obra. A placa muda de forma – quadrada, circular, paralelogrâmica -, muda de proporção, muda de espessura, mas como consequência do mesmo recurso expressivo: o corte e a dobra.

É verdade que esse procedimento se enriquece ao longo dos anos com novos elementos que, no entanto, não alteram sua natureza, mas antes a acentuam, como o uso da placa de ferro espessa, de grande formato, que, por ser espessa e grande, valoriza tanto o corte quanto a dobra. Como se vê, é a superfície que fala conforme suas qualidades materiais, se menos ou maior, se mais espessa ou mais fina.

Houve, porém, um momento em que Amilcar buscou um novo modo de criar sua escultura. Foi quando produziu a série de obras em que utilizou o corte, mas não a dobra, ou seja, abdicou da criação do volume virtual. Nessa fase, a placa é tão espessa que já nem pode ser chamada de placa, mas de bloco. São blocos de ferro, de pequeno tamanho e forma retangular ou quadrada. O corte vale por si mesmo e não como um meio para possibilitar a dobra: ele é feito para permitir a penetração do espaço no bloco compacto de ferro ou para permitir a inserção de um bloco no outro. É uma experiência que lembra a “linha orgânica” de Lygia Clark, mas que não é uma cópia, e sim uma redescoberta. Amilcar, assim, retomava a problemática da escultura enquanto massa, como a ajustar contas com o passado.

A fase atual é uma continuação da linguagem de cortes e dobras, só que agora explorando novas possibilidades desse procedimento. É que as obras atuais foram feitas com um tipo especial de aço que permite o uso de placas mais delgadas, o que, por sua vez, possibilita diferentes modos de dobrá-las.

O INSTITUTO AMILCAR DE CASTRO

Em 2004 no seu local de trabalho, o ateliê de Nova Lima, foi transformado no Instituto Amilcar de Castro, tendo por objetivo organizar e preservar as obras do acervo do artista. O Instituto desenvolve um trabalho permanente com o objetivo de divulgar e valorizar a obra e a história do artista. Desde sua fundação que os trabalhos são cedidos para mostras individuais e coletivas, em galerias e espaços institucionais, nacionais e internacionais, contribuindo para que a visibilidade da obra alcance os variados meios de comunicação com o publico, colecionadores, admiradores da arte e pesquisadores do assunto, do artista e sua história. Aberto para visitação ao público, por enquanto com agendamento prévio, o Instituto abre suas portas para compartilhar com todos os interessados em ver e sentir de perto a força da obra de Amilcar.

Para as comemorações dos 100 anos o Instituto reuniu em seu site (contato@institutoamilcardecastro.com.br) uma variedade de opiniões sobre a pessoa ou/e a obra, e são destas contribuições, após uma seleção, e incluindo nele sua biografia, e dele sendo também retirado o texto crítico de Ferreira Gullar, que formatamos os textos deste catálogo, onde temos familiares, amigos, críticos, e artistas com suas opiniões, confirmando o que dele disse o também artista, e seu filho, Rodrigo de Castro: Que, acreditando sempre e até o fim realizou uma obra fora do tempo. Hoje ou em qualquer tempo, Amilcar de Castro sempre irá surpreender e preencher nosso olhar, nossa alma, com o inusitado, o novo, a arte pura de um mestre que, com sabedoria, empurrou o fim para um depois, mais e muito além do tempo.

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