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Dimitri Lee

Circuito Art

TERRITÓRIO SÃO MATEUS • V.I.MMXX

Não há remédio para a COVID, nem vacina, apenas tratamos os sintomas e não podemos fazer mais nada. Pense de maneira simples e realista, pense que o vírus está em todo lugar à nossa volta: nas paredes, sobre aquelas caixas, na mesa em que você está com a mão apoiada, se coçar os olhos agora você estará contaminado. Não, não precisa se apavorar, tome, limpe as mãos com álcool gel. Já disseram como proceder quando chegar em casa, não é? Ótimo. Habitue-se a só coçar o rosto com as costas das mãos, é difícil, eu sei, mas você se acostuma. Evite tocar na máscara e lave sempre as mãos. É o que temos. Lembre-se: o vírus está em toda a parte à nossa volta, e assim pensando, você não relaxa a guarda. Siga o protocolo e tudo ficará bem, ainda que não se possa ter plena certeza disso.

Era o meu primeiro dia de trabalho e foram mais ou menos estas as palavras do Marden sobre o perigo a que estava exposto; apesar disso, eu sentia um excitante borbulhar do sangue. Ia conhecer uma unidade básica de saúde em época de pandemia como quem penetra num mundo secreto e perigoso. E, no entanto, nem tudo era medo.

Na calçada em frente à Sededa Fundação, numa manhã outonal e agradavelmente fria, com uma luz muito branca a iluminar as fachadas das casas e a solidão da rua, conheci o Dimitri. Ali estavam o Marden e o Dr. João, todos nós devidamente paramentados com jalecos e máscaras, prontos para irmos para uma unidade de São Mateus. Falamos de Angola, soube que Dimitri fotografara os conflitos entre a Unita e o MPLA no início dos anos 2000. Seu último trabalho tinha sido em “El Alto” na Bolívia, tinha acabado de concluí-lo, mas a pandemia viera suspender por tempo indeterminado a publicação de suas fotos. Depois de uma temporada infernal de isolamento e tédio, veio-lhe a proposta salvadora do Dr. João. Em termos de risco, aquele território, carente e assolado por doenças várias, e que se tornava ainda mais vulnerável com a pandemia, não era menos ameaçador do que fotografar o conflito em Angola, eram apenas de naturezas distintas. O Marden e o João foram resolver assuntos próprios ao trabalho e ficamos nos dois esperando o Valter, o motorista. E foi assim que eu encontrei um parceiro de bom papo e pito. Acho que ficou comovido quando me viu, mais velho do que ele e talvez tão voyeur quanto, eu recolhia relatos e ele imagens. Lembrei o conto do Cortázar, Las Babas del Diablo e do filme do Antonioni, falei do que parecia ser o tema central do conto e do filme: o que é capturado pela câmara sem querer, o mistério que se esconde sob a luz clara da realidade e se vislumbra na foto. Mas ele desviou levemente o foco da nossa conversa, aquele era um trabalho novo para ele, como me explicaria depois, e se sentia na obrigação de me introduzir naquele ambiente.

– A gente vai entrar um território pobre e perigoso, mas não se preocupe, seu jaleco é o seu colete de proteção, todo mundo respeita o avental branco com símbolo azul do SUS. Acredite: eu me sinto mais seguro passeando com minha câmara numa ocupação do que na Av. Paulista. Gosto de andar pelo território, ainda que isso me faça chorar muitas vezes quando volto para casa.

Uma boa foto costuma cobrar seu tributo em lágrimas. Dimitri aceitava isso, como aceitava os limites da voragem do olhar do fotógrafo. Depois pude comprovar o que dizia, havia um respeito às pessoas, quase um pudor, uma renúncia radical a qualquer atitude invasiva que pudesse expor indevidamente a intimidade do fotografado.

– A gente não está no zoológico e essas pessoas não são animais grotescos ou engraçadinhos.

Era sua renúncia ao paparazzi que habita todo fotógrafo.

– As minhas fotos mudaram desde que vim para cá, você entende?

Não, mas iria entender. O Valter chegou e lá fomos nós à UBS Nove de Julho da qual eu pouco sabia a não ser que o nome da gerente era Kelly e que o prédio da unidade de saúde não possuía janelas. No percurso de carro da Sede em Santo André ao Jardim Nove de Julho em São Mateus, a conversa foi retomada e se desdobrou pela av. Matheo Bei. Perguntei-lhe sobre o território.

– A coisa é pesada, se prepare. O bolinha está no ar (ele chamava o vírus de bolinha), é perigoso? É, mas acredite, estamos no lugar certo, onde devíamos estar.
Falamos do medo, argumentei que ter medo não significava não ter coragem, ele se lembrou da palestra do escritor Jorge Luís Borges, que assistiu quando o escritor argentino esteve em São Paulo na década de 80. E concluímos que a coragem não é não ter medo, mas o que se faz apesar do medo. Voltou a falar do território e de como tudo aquilo o mobilizava.

– Você entra em casas pobres e encontra doenças que a gente imaginava extintas: tuberculose era o quê? Coisa de poeta do século XIX! … Sífilis?… Lepra?… Sarampo?… Tudo isso renasce e floresce bem aqui, nas franjas da cidade mais rica do Brasil. E esses caras – referindo-se aos médicos, enfermeiros e agentes comunitários de saúde – saem de casa todos os dias para enfrentar a morte e às vezes a trazem consigo ao final do expediente. O medo não os impede de cuidar e de acolher.

Falamos de outras coisas que também nos comoviam, de música, de literatura e dos meus contos. Chegamos ao Nove de Julho e a realidade se impôs súbita ao vermos surgir o pequeno edifício da UBS e ao lado, num terreno cedido pelo vizinho, uma grande tenda foi armada, era onde se atendiam os pacientes com suspeita de infeção pelo vírus. As unidades de saúde se adequavam como podiam aos tempos de pandemia. Uma nova configuração foi traçada e posta em funcionamento para o atendimento mais seguro e efetivo: a área azul seria destinada aos atendimentos diversos e a área vermelha, separada o mais possível dos pacientes da área azul, receberia os pacientes com sintomas de COVID.

No começo de Junho, ecoava o forte apelo dos órgãos de saúde para as pessoas ficarem isoladas em suas casas. Aconselhava-se também na época, que as pessoas só procurassem os hospitais e postos de saúde em casos de muita urgência, ou se apresentassem sintomas graves da doença. Havia um pequeno grupo em frente à unidade e a enfermeira Karina, que nos receberia depois, atendia a um senhor, que me pareceu com mais de setenta, mas aqui o tempo de vida nos engana e pode ser que não passasse dos cinquenta. Vinha atrás de remédios e queria saber se a farmácia estava aberta.

– Está sim, seu Osvaldo, mas cadê a máscara?

Seu Osvaldo não sabia usar aquilo. Karina entregou-lhe uma máscara, explicou como colocá-la pegando-a pelos elásticos, devia evitar tocar o rosto com as mãos e ensinou os cuidados todos de uso e higienização da máscara e do corpo, tudo com um didatismo admirável. Antes de nos apresentarmos, Dimitri quis ver a área vermelha.

– O Covidário, – onde havia um médico paramentado com luva, vestimenta, máscara N 95 sob a face shield, mais três pessoas que aguardavam para a coleta de material para exames. Eram como personagens de um enredo cósmico, cujo autor se divertia construindo histórias dolorosas, ternas e surreais – essas pessoas que esperam estão com sintomas e assim, provavelmente todos aqui, estão contaminados.
Os riscos eram grandes, ainda pouco se sabia sobre o vírus e o número de óbitos e covas abertas cresciam assustadoramente. As pessoas que podiam se trancavam em casa, mas na periferia nem todos podem. Deixamos o Covidário e fomos falar com a gerente Kelly que nos mostrou a área azul. Encontramos durante a visita com a enfermeira Karina que se dispôs para uma breve entrevista. Lembro que falou do impacto inicial da pandemia, que houve um momento de paralisia e angústia, pois ninguém sabia direito o que fazer. Falou também do medo que sentia de pegar a doença e o medo ainda maior de transmiti-la a seus familiares. Mal terminamos a entrevista apareceu uma pálida assistente de enfermagem, precisavam dela na área vermelha. Karina disparou, e nós fomos atrás.

As pessoas que vimos no momento anterior no covidário já haviam sido atendidas. O homem entre vinte e cinco e trinta anos, que aguardava numa cadeira de rodas, estava com baixo nível de saturação, como indicava o oxímetro. Trouxeram de imediato um tubo de oxigênio e vimos a perturbação no rosto da esposa, que trazia o filho pequeno no colo. Encostou uma ambulância na porta da UBS. O paciente foi acomodado no veículo, e Dimitri se deslocando de lado para outro ia disparando seus clicks. Fecharam as porta ambulância que partiu logo, sem que a mulher se lembrasse de se despedir direito do marido. Ficou ali na calçada como se não nos notasse, sustentando o filho ao colo e em profundo silêncio, olhando o carro que se distanciava e desapareceu virando uma esquina no final da rua.

O Dimitri coçou a cabeça, como costumava fazer às vezes, nos entreolhamos e não trocamos palavra. Torcíamos intimamente para que a situação tivesse um bom desfecho, embora soubéssemos que a indesejada das gentes nos rondava paciente e sem alarde.
Não adiantava sofrer muito com aquilo, era aguardar, e fomos almoçar no Panela da Vovó, que era lá para perto da UBS Recanto Verde do Sol e que o Dimitri queria me apresentar. Era o único delivery da cidade que atendia presencialmente, mas apenas profissionais da saúde. Um respiro, um pequeno luxo, quando todos os restaurantes e botecos estavam fechados. Era o nosso O Covidário, como o batizou o Dimitri. À tarde conversamos com agentes comunitários de saúde, recolhi relatos, alguns bastante provocadores, depois voltamos para a Sede em Santo André.

O Marden nos aguardava curioso para saber as minhas impressões do dia. Falei daquele homem da manhã que estava com baixa saturação e que fora levado para o Hospital de Campanha. Falei da presença da esposa com o filho de colo. Marden tivera conhecimento daquela história pela gerente Kelly e acompanhava o caso. Depois falei da minha conversa com agentes comunitários de saúde, na maioria mulheres, e de como se dava o vínculo dos ACS com os pacientes que atendiam em casa. Esses profissionais que estão na ponta do atendimento e do acompanhamento trazem consigo uma coleção fabulosa de histórias. Mas antes que eu pudesse contar alguma, o Marden teve que atender uma chamada e encaminhar qualquer coisa. Voltou-se depois para nós e com aquele tom de voz sempre sereno até para comunicar o terrível, disse:
– O paciente que vocês viram de manhã no Nove de Julho foi entubado, mas não resistiu. Dimitri olhou-me consternado:
– Então eu fiz a última fotografia daquele rapaz!
Mais uma vez ela vinha me fazer sentir sua presença, caprichosamente se escondia e se revelava, oblíqua e dissimulada: a indesejada das gentes. Pensei naquela mulher com a criança, ela também estava vendo seu marido pela última vez. Nesse momento ela já sabe do falecimento do seu esposo, eu é que não sei seus nomes nem nada de suas vidas, nem o quanto se amaram, nem que futuro sonharam para o filho. Assisti apenas a um fragmento do final de uma história, quase nada.
A foto em preto e branco do Dimitri que vi depois, não batia com a fotografia que meus olhos haviam fixado. Percebi que ele evitava enfocar diretamente o rosto do homem de modo a não expô-lo mais do que o preciso. Percebi também, mas isso podia ser apenas uma interferência da luz ou do meu olhar contaminado, que a imagem mostrava o homem com a máscara de oxigênio, a Karina e outra enfermeira que o acomodavam no interior da ambulância e, quase não se nota, mas ela está ali.

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